Joca Entrevista – Rodrigo Bueno
Para a primeira entrevista do espaço “Joca Entrevista”, escolhi entrevistar o colunista da Folha de S. Paulo e comentarista da ESPN Brasil, Rodrigo Bueno. Escolhi entrevistá-lo porque adoro suas colunas e ainda por gostar da forma que ele comenta futebol internacional. Agradeço a ele por ter respondido meu email com boa vontade e bom humor mesmo em suas férias. Para informações, quero que saibam que essa já é a “Joca Entrevista” de Julho, apesar de estar sendo postada no último dia de Junho. Fiquem com a entrevista!
Joca: Se importa em contar um pouco das suas primeiras experiências com o futebol?
Rodrigo Bueno: Não me lembro da minha primeira experiência com futebol, pois certamente meu pai me levou a algum jogo de futebol no bairro quando eu era bebê. Com quatro anos de idade (aí já me lembro), o ”paizão” Nestor já me colocava num campo de várzea para jogar contra moleques de uns dez anos. Era o time de futebol que meu velho treinava, o inesquecível Real Parque, o “Galo da Várzea”, que foi extinto pela modernidade e por pelo menos um cartola sacana. Hoje, no lugar do Real Parque, estão os campos bacanas do Pão de Açúcar em frente à pomposa Ponte Estaiada. Cresci jogando bola ali naqueles campos de terra, lama e um pouco de grama bem em frente da minha casa, bem ao lado da Favela da Mandioca. Mas vou pular umas partes da história, pois (mesmo com a internet permitindo histórias longas) não quero cansar seus tão qualificados leitores.
O meu primeiro jogo de futebol no estádio foi oficialmente a maior concentração de são-paulinos em todos os tempos. Diziam que eram 114 mil pessoas no Morumbi na semifinal do Brasileiro de 1977, vi uma ficha depois de crescido em que constavam 103.092 torcedores contra o valoroso Operário (MS), mas para mim, que estava no auge dos meus cinco anos, havia naquele 26 de fevereiro muito mais que 150 mil pessoas, a suposta capacidade do Morumbi naquela época. Nas arquibancadas superlotadas, não entendi nada do que acontecia no gramado, tão longe, lá embaixo. Mas aprendi o conceito de medo. Um bando de gente maluca ficava gritando, berrando, falando palavrões, amassando meu diminuto pai. O que diabo eu estava fazendo ali? Bom, entendi que era algo alegre para quase todo mundo quando Serginho fez um gol salvador no fim do jogo (li que foi no minuto 77, ainda tinha muito jogo pela frente…). Mas não ri de nada. Ao contrário, segurei um choro de desespero. Meu pai me pegou no colo (eu devia estar no ombro do cara do lado) e me jogou para o alto para festejar aquele gol que sinalizava, talvez, para o primeiro título nacional do São Paulo. Não tinha a menor idéia de que o Atlético-MG, rival da final, era estupidamente melhor que o São Paulo, mas meu pai já celebrava o título naquele dia, pois seu filho caçula, seu único herdeiro macho, era batizado como tricolor em grande estilo. O São Paulo fez 2 a 0 com Neca (não tenho a menor lembrança de você Neca, perdão) aos 42min (42 minutos, essa Folha insiste em me acompanhar…) e lá fui eu para o espaço de novo. Pedi ao meu pai que não me jogasse mais para o alto, torci para não sair mais gols porque estava apavorado. Dentre as 200 mil pessoas sorridentes no Morumbi, uma estava em estado de choque. Meus apelos não foram atendidos. Serginho marcou outro nos acréscimos (os caras falavam descontos na época), mostrando para mim que o jogo só termina quando acaba (aquele não acabava e lá estava eu de novo voando nas arquibancadas). Fiquei com tanto trauma que meu pai só me levou nos anos seguintes ao nosso vizinho Morumbi em jogos contra times pequenos (o Operário foi gigante em 1977/1978) e com pouco público. Comecei a ver jogos de futebol na TV, mesmo sem curtir, na Copa de 1978. Lembro que meu pai reunia alguns amigos e a família para torcer contra um time de cabeludos que jogava com uma camisa com listras azuis e brancas. Não entendia o motivo daquela torcida, pois era o time mais legal que via. Quando entrava em campo, chovia papel picado, a galera no estádio fazia uma festa louca por aqueles jogadores que pareciam piratas. Meu pai, revoltado, não curtiu nem um pouco ver aquele time ser campeão em cima de uma equipe estranha de laranja. E eu fiquei feliz porque me pareceu legal a festa pela TV. Eu (e em especial o meu pai) não poderia imaginar que, dez anos depois, eu viraria um fervoroso torcedor daquela tal equipe laranja (desculpe Holanda, mas eu torci contra você naquela final de 78, eu não sabia o que era futebol, me perdoa, por favor).
Joca: De onde veio a ideia de tornar-se jornalista?
Rodrigo Bueno: Eu só tinha a ideia, altamente incentivada pelo pai (claro), de ser jogador de futebol até os meus 16 anos. Mas, no fundo, eu só sabia o que não seria. Nunca trabalharia com números, matemática… Física e química nem sei o que são até hoje. Gostava de escrever e isso me ajudou a definir minha opção no vestibular (passei em jornalismo na PUC, publicidade na FIAM, acho que relações públicas na Cásper Líbero, psicologia no Mackenzie e não sei mais o quê). Fiquei com o jornalismo, que foi o que eu tentei sem sucesso na USP (mas entrei na tão sonhada universidade pública para fazer um pouco de… educação física/esporte). E, para obter a tal realização pessoal, era certo que eu trabalharia com esporte, minha paixão. Posso muito bem escrever sobre cultura, política, cotidiano etc. (afinal jornalista está aí no mercado para todo tipo de bobagem), mas é muito mais legal escrever sobre o que amamos. Não sei se as pessoas gostam do que escrevo, mas eu adoro escrever sobre o que eu escrevo. Sou profissionalmente realizado, embora seja eternamente um jogador de futebol frustrado.
Joca: Obviamente, você curte muito mais o futebol internacional do que o futebol brasileiro. Entre os amigos e jornalistas que conheço hoje em dia quase todos preferem assistir ao futebol estrangeiro. Meu pai me disse que você já era um adorador do futebol internacional antes de isto virar moda. Como isso começou e o que você via lá e não via aqui?
Rodrigo Bueno: Comecei a ver futebol para valer mesmo na Copa de 1982. Amava a seleção brasileira e chorei pela única vez no futebol com a derrota para a Itália. Mas aquele Mundial, o mais bacana para mim até hoje, me apresentou de verdade ao futebol internacional. Cresci ouvindo que o Brasil era o país do futebol e que todos os outros eram pernas de pau. Os europeus tinham a cintura dura, os africanos eram bobos, os asiáticos tinham olhos puxados e não viam a bola, os americanos achavam que a bola é oval, os mexicanos eram nossos amigos coitadinhos que só perdiam, os argentinos e uruguaios só sabiam dar porrada e fazer cera e catimba, e os outros sul-americanos… bom não valia nem a pena falar desses sacos de pancada. Colecionei então um álbum com figurinhas que vinham nos chicletes Ping Pong. As figurinhas eram de péssima qualidade, mas fáceis para a prática do bafo e úteis para a identificação de Platinis, Paolo Rossis, Rummenigges, Shiltons, Bonieks, Maradonas (o único jogador singular para mim até o início da Copa era o Zico). Segui o Mundial com os melhores amigos, reproduzindo os jogos em futebol de botão, ouvindo as adolescentes que já me encantavam elogiando as pernas do Éder (e as minhas ainda não eram grossas…), fazendo festas para celebrar as vitórias e por aí vai. Acabou a Copa e acabou tudo. O mundo acabou. Onde e quando eu poderia ver futebol internacional? Só em 1986 no México, com certeza. Queria ver o Maradona, o ”Homem de US$ 6 milhões”, mas não tinha TV a cabo, internet, celular, revista estrangeira por perto. Nem figurinha mais tinha. Comecei anos depois a trocar o futebol de domingo pela manhã no time do meu pai pelo Campeonato Italiano. Fui deixando os velhos chapas de bola pelo Gullit, pelo Van Basten, pelo Rijkaard. O calcio era o Eldorado da bola, a liga nacional do momento porque reunia os melhores jogadores do mundo. Mas eram poucos. Só podia três estrangeiros por time. Eram os brasileiros e Maradona no Napoli, os holandeses do Milan, os alemães da Inter… Hoje, é muito mais atrativo ver um Manchester United x Arsenal com só dois ingleses bons de bola em campo (e com toda informação possível). Eu aprendia que era A Fiorentina e O Bari com o mestre Silvio Lancelotti nas transmissões do Italiano pela Bandeirantes. Isso era O futebol internacional semanal no Brasil. Vez ou outra a Globo mostrava a final da Copa dos Campeões no lugar da sessão da tarde. Algumas não podia ver por causa dos estudos ou de outros compromissos menores. Eu já adorava ver o Careca no Brasil (no segundo título brasileiro do São Paulo, ele fez até chover no Morumbi e voei então feliz com os amigos várias vezes nas arquibancadas). Mas ver o Careca no Napoli ao lado de Maradona era como ver a Copa do Mundo a cada final de semana. Virou um pouco moda no Brasil seguir o Italiano naquela época. Nada comparado, claro, com o que acontece hoje, pois vemos até mais camisas de times estrangeiros nas ruas do que as dos clubes brasileiros. Foi aí que começou meu maior desvio na vida. Não torcia como a Band e outros amigos pelo Napoli, curtia mais o Milan por causa de Gullit e Van Basten, que logo viraram meus ídolos. Vibrei com o título de 1987/1988, em especial com um épico 3 a 2 no Napoli, quase como nos 2 a 1 do São Paulo no Corinthians na final do Paulista de 1987 (e olha que esse Paulista foi o mais legal para mim). Veio a Eurocopa de 1988, cuja fase final foi mostrada pela Globo. Já fã dos holandeses, segui o torneio praticamente como segui a Copa de 1986, a última disputa em que torci para o Brasil de fato com todo o coração (ah mestre Telê, que pena…). Fui enlouquecendo com meus ídolos ao longo do torneio e, quando Van Basten acertou na final aquele sem-pulo-com-pulo-sem-ângulo-no-ângulo (?) de Dasaev (Dasayev no Google), me converti para o lado negro, ou melhor, para o lado laranja da Força. Meu pai viu os minutos finais daquele jogo comigo e até hoje, incrédulo, não conseguiu me trazer de volta para o lado verde e amarelo. Ele sente que no fundo ainda há algo bom dentro de mim, mas saiu de casa para ver Brasil x Holanda na Copa de 1994 no Vale do Anhangabaú com o povo para não dividir a TV com um “laranja podre” (”traíra”) como eu. De verdade, virei um torcedor ”estrangeiro”.
Rodrigo Bueno: Não me lembro da minha primeira experiência com futebol, pois certamente meu pai me levou a algum jogo de futebol no bairro quando eu era bebê. Com quatro anos de idade (aí já me lembro), o ”paizão” Nestor já me colocava num campo de várzea para jogar contra moleques de uns dez anos. Era o time de futebol que meu velho treinava, o inesquecível Real Parque, o “Galo da Várzea”, que foi extinto pela modernidade e por pelo menos um cartola sacana. Hoje, no lugar do Real Parque, estão os campos bacanas do Pão de Açúcar em frente à pomposa Ponte Estaiada. Cresci jogando bola ali naqueles campos de terra, lama e um pouco de grama bem em frente da minha casa, bem ao lado da Favela da Mandioca. Mas vou pular umas partes da história, pois (mesmo com a internet permitindo histórias longas) não quero cansar seus tão qualificados leitores.
O meu primeiro jogo de futebol no estádio foi oficialmente a maior concentração de são-paulinos em todos os tempos. Diziam que eram 114 mil pessoas no Morumbi na semifinal do Brasileiro de 1977, vi uma ficha depois de crescido em que constavam 103.092 torcedores contra o valoroso Operário (MS), mas para mim, que estava no auge dos meus cinco anos, havia naquele 26 de fevereiro muito mais que 150 mil pessoas, a suposta capacidade do Morumbi naquela época. Nas arquibancadas superlotadas, não entendi nada do que acontecia no gramado, tão longe, lá embaixo. Mas aprendi o conceito de medo. Um bando de gente maluca ficava gritando, berrando, falando palavrões, amassando meu diminuto pai. O que diabo eu estava fazendo ali? Bom, entendi que era algo alegre para quase todo mundo quando Serginho fez um gol salvador no fim do jogo (li que foi no minuto 77, ainda tinha muito jogo pela frente…). Mas não ri de nada. Ao contrário, segurei um choro de desespero. Meu pai me pegou no colo (eu devia estar no ombro do cara do lado) e me jogou para o alto para festejar aquele gol que sinalizava, talvez, para o primeiro título nacional do São Paulo. Não tinha a menor idéia de que o Atlético-MG, rival da final, era estupidamente melhor que o São Paulo, mas meu pai já celebrava o título naquele dia, pois seu filho caçula, seu único herdeiro macho, era batizado como tricolor em grande estilo. O São Paulo fez 2 a 0 com Neca (não tenho a menor lembrança de você Neca, perdão) aos 42min (42 minutos, essa Folha insiste em me acompanhar…) e lá fui eu para o espaço de novo. Pedi ao meu pai que não me jogasse mais para o alto, torci para não sair mais gols porque estava apavorado. Dentre as 200 mil pessoas sorridentes no Morumbi, uma estava em estado de choque. Meus apelos não foram atendidos. Serginho marcou outro nos acréscimos (os caras falavam descontos na época), mostrando para mim que o jogo só termina quando acaba (aquele não acabava e lá estava eu de novo voando nas arquibancadas). Fiquei com tanto trauma que meu pai só me levou nos anos seguintes ao nosso vizinho Morumbi em jogos contra times pequenos (o Operário foi gigante em 1977/1978) e com pouco público. Comecei a ver jogos de futebol na TV, mesmo sem curtir, na Copa de 1978. Lembro que meu pai reunia alguns amigos e a família para torcer contra um time de cabeludos que jogava com uma camisa com listras azuis e brancas. Não entendia o motivo daquela torcida, pois era o time mais legal que via. Quando entrava em campo, chovia papel picado, a galera no estádio fazia uma festa louca por aqueles jogadores que pareciam piratas. Meu pai, revoltado, não curtiu nem um pouco ver aquele time ser campeão em cima de uma equipe estranha de laranja. E eu fiquei feliz porque me pareceu legal a festa pela TV. Eu (e em especial o meu pai) não poderia imaginar que, dez anos depois, eu viraria um fervoroso torcedor daquela tal equipe laranja (desculpe Holanda, mas eu torci contra você naquela final de 78, eu não sabia o que era futebol, me perdoa, por favor).
Joca: De onde veio a ideia de tornar-se jornalista?
Rodrigo Bueno: Eu só tinha a ideia, altamente incentivada pelo pai (claro), de ser jogador de futebol até os meus 16 anos. Mas, no fundo, eu só sabia o que não seria. Nunca trabalharia com números, matemática… Física e química nem sei o que são até hoje. Gostava de escrever e isso me ajudou a definir minha opção no vestibular (passei em jornalismo na PUC, publicidade na FIAM, acho que relações públicas na Cásper Líbero, psicologia no Mackenzie e não sei mais o quê). Fiquei com o jornalismo, que foi o que eu tentei sem sucesso na USP (mas entrei na tão sonhada universidade pública para fazer um pouco de… educação física/esporte). E, para obter a tal realização pessoal, era certo que eu trabalharia com esporte, minha paixão. Posso muito bem escrever sobre cultura, política, cotidiano etc. (afinal jornalista está aí no mercado para todo tipo de bobagem), mas é muito mais legal escrever sobre o que amamos. Não sei se as pessoas gostam do que escrevo, mas eu adoro escrever sobre o que eu escrevo. Sou profissionalmente realizado, embora seja eternamente um jogador de futebol frustrado.
Joca: Obviamente, você curte muito mais o futebol internacional do que o futebol brasileiro. Entre os amigos e jornalistas que conheço hoje em dia quase todos preferem assistir ao futebol estrangeiro. Meu pai me disse que você já era um adorador do futebol internacional antes de isto virar moda. Como isso começou e o que você via lá e não via aqui?
Rodrigo Bueno: Comecei a ver futebol para valer mesmo na Copa de 1982. Amava a seleção brasileira e chorei pela única vez no futebol com a derrota para a Itália. Mas aquele Mundial, o mais bacana para mim até hoje, me apresentou de verdade ao futebol internacional. Cresci ouvindo que o Brasil era o país do futebol e que todos os outros eram pernas de pau. Os europeus tinham a cintura dura, os africanos eram bobos, os asiáticos tinham olhos puxados e não viam a bola, os americanos achavam que a bola é oval, os mexicanos eram nossos amigos coitadinhos que só perdiam, os argentinos e uruguaios só sabiam dar porrada e fazer cera e catimba, e os outros sul-americanos… bom não valia nem a pena falar desses sacos de pancada. Colecionei então um álbum com figurinhas que vinham nos chicletes Ping Pong. As figurinhas eram de péssima qualidade, mas fáceis para a prática do bafo e úteis para a identificação de Platinis, Paolo Rossis, Rummenigges, Shiltons, Bonieks, Maradonas (o único jogador singular para mim até o início da Copa era o Zico). Segui o Mundial com os melhores amigos, reproduzindo os jogos em futebol de botão, ouvindo as adolescentes que já me encantavam elogiando as pernas do Éder (e as minhas ainda não eram grossas…), fazendo festas para celebrar as vitórias e por aí vai. Acabou a Copa e acabou tudo. O mundo acabou. Onde e quando eu poderia ver futebol internacional? Só em 1986 no México, com certeza. Queria ver o Maradona, o ”Homem de US$ 6 milhões”, mas não tinha TV a cabo, internet, celular, revista estrangeira por perto. Nem figurinha mais tinha. Comecei anos depois a trocar o futebol de domingo pela manhã no time do meu pai pelo Campeonato Italiano. Fui deixando os velhos chapas de bola pelo Gullit, pelo Van Basten, pelo Rijkaard. O calcio era o Eldorado da bola, a liga nacional do momento porque reunia os melhores jogadores do mundo. Mas eram poucos. Só podia três estrangeiros por time. Eram os brasileiros e Maradona no Napoli, os holandeses do Milan, os alemães da Inter… Hoje, é muito mais atrativo ver um Manchester United x Arsenal com só dois ingleses bons de bola em campo (e com toda informação possível). Eu aprendia que era A Fiorentina e O Bari com o mestre Silvio Lancelotti nas transmissões do Italiano pela Bandeirantes. Isso era O futebol internacional semanal no Brasil. Vez ou outra a Globo mostrava a final da Copa dos Campeões no lugar da sessão da tarde. Algumas não podia ver por causa dos estudos ou de outros compromissos menores. Eu já adorava ver o Careca no Brasil (no segundo título brasileiro do São Paulo, ele fez até chover no Morumbi e voei então feliz com os amigos várias vezes nas arquibancadas). Mas ver o Careca no Napoli ao lado de Maradona era como ver a Copa do Mundo a cada final de semana. Virou um pouco moda no Brasil seguir o Italiano naquela época. Nada comparado, claro, com o que acontece hoje, pois vemos até mais camisas de times estrangeiros nas ruas do que as dos clubes brasileiros. Foi aí que começou meu maior desvio na vida. Não torcia como a Band e outros amigos pelo Napoli, curtia mais o Milan por causa de Gullit e Van Basten, que logo viraram meus ídolos. Vibrei com o título de 1987/1988, em especial com um épico 3 a 2 no Napoli, quase como nos 2 a 1 do São Paulo no Corinthians na final do Paulista de 1987 (e olha que esse Paulista foi o mais legal para mim). Veio a Eurocopa de 1988, cuja fase final foi mostrada pela Globo. Já fã dos holandeses, segui o torneio praticamente como segui a Copa de 1986, a última disputa em que torci para o Brasil de fato com todo o coração (ah mestre Telê, que pena…). Fui enlouquecendo com meus ídolos ao longo do torneio e, quando Van Basten acertou na final aquele sem-pulo-com-pulo-sem-ângulo-no-ângulo (?) de Dasaev (Dasayev no Google), me converti para o lado negro, ou melhor, para o lado laranja da Força. Meu pai viu os minutos finais daquele jogo comigo e até hoje, incrédulo, não conseguiu me trazer de volta para o lado verde e amarelo. Ele sente que no fundo ainda há algo bom dentro de mim, mas saiu de casa para ver Brasil x Holanda na Copa de 1994 no Vale do Anhangabaú com o povo para não dividir a TV com um “laranja podre” (”traíra”) como eu. De verdade, virei um torcedor ”estrangeiro”.
Joca: Ao que você atribui a popularidade do futebol europeu no Brasil? Você acha que a popularidade do Winning Eleven e do FIFA (Games de Futebol) teria alguma coisa a ver?
Rodrigo Bueno: O futebol europeu ficou popular no Brasil porque é muito bom. Brasileiro pode não entender de muita coisa, mas de futebol entende. Se os melhores jogadores, times, partidas e torneios estão lá, vamos vê-los. E agora não falta quem transmita, comente, discuta, faça propaganda positiva do futebol europeu. Os games estão sem dúvida nenhuma entre os fatores que contribuíram para a globalização e a adoração do futebol, em especial o europeu, que reúne a nata do esporte. O Pelé é uma lenda, um mito que muita gente não viu jogar ou, se muito, o acompanhou na Copa de 70 (falo do mundo todo). O Cristiano Ronaldo, o Kaká e o Messi estão na nossa frente todos os dias, basta entrar num site, ligar na enésima reprise do jogo na TV a cabo, ver o TL (texto-legenda) da contracapa do nosso jornal, jogar o Winning Eleven etc.
Joca: Caso o Ajax (time para o qual você torce na Europa) vencesse a UEFA Champions League, e o time para o qual você torce aqui no Brasil vencesse a Libertadores, para quem você torceria na final do Mundial?
Rodrigo Bueno: Em condições normais, torço pelo São Paulo contra qualquer adversário, mesmo meu (s) time (s) europeu (s). Torço pelo Liverpool e pelo Milan, mas fui muito São Paulo contra os dois em Mundiais. O mesmo vale para o Barcelona, um dos quatro times espanhóis que são simpáticos para mim. Aprendi a torcer a favor e contra determinados times, técnicos e jogadores. Por exemplo: torcia muito pelo São Paulo de Telê, mas talvez torcesse contra um São Paulo de Vanderlei Luxemburgo. O Ajax de 1995 era um time infinitamente mais legal que o Grêmio do Felipão. Mesmo se não torcesse pelo Ajax, acabaria torcendo pelo gigante de Amsterdã pelo seu futebol mais encantador. Meu coração vê muito a fase dos times (sou um torcedor vira-casaca diet). O Ajax hoje dá pena. Se vencer milagrosamente uma Copa dos Campeões (não aguenta mais nem o fraco Campeonato Holandês), tendo a torcer por ele em um Mundial por piedade, pelo resgate de uma história linda que a globalização ajudou a minar. Hoje, o São Paulo está muito mais perto de um tetra, penta, hexa mundial do que o Ajax de um tri do planeta. Engraçado que, quando o São Paulo jogou seus três Mundiais, eu torci também pelo Tricolor por ser supostamente o mais fraco da ocasião. Os títulos mundiais de 1992, 1993 e 2005 eram muito mais importantes para o São Paulo do que para seus poderosos adversários, que podem com dinheiro, organização e camisa estar seguidamente em Mundiais.
OBS: Houve um amistoso entre São Paulo e Ajax no Morumbi em 1997. Fui nesse jogo apoiar o Ajax, que atuou com uma equipe mista (peguei depois do jogo a camisa do Reuser, um reserva do Ajax que simplesmente não acreditou que um brasileiro, mesmo jornalista, pudesse saber seu nome). O jogo foi interrompido quando estava 1 a 1 por causa de uma neblina até hoje única na história do Morumbi. Foi fruto da minha torcida para nenhum dos dois times passarem vergonha.
Joca: Como se tornou colunista da Folha de S. Paulo?
Rodrigo Bueno: Eu só virei colunista da Folha, de forma muito precoce (24 anos, com cabeça de 12), porque Silvio Lancelotti, o dono da coluna de futebol internacional até então, deixou o jornal, e porque o Melk, meu editor, não teve medo de arriscar. Eu era (ainda sou rsrsrs) um grande risco. E minhas primeiras colunas foram bem fracas. Escrevia preocupado em ser o novo Lancelotti, em agradar ao Melk, em seguir determinados padrões, em ser certinho demais… (ou seja, não era bem a ”minha coluna”). Com passar do tempo, fui me soltando, e a coluna foi ficando mais com a minha cara (pobre leitor!).
Joca: Você poderia contar um pouco de sua rotina de trabalho? Como você escolhe o assunto do qual irá escrever em sua coluna?
Rodrigo Bueno: A rotina do trabalho é não ter rotina (tem dia que escrevo atrasando o fechamento, sem ter a mínima ideia do que ”falar”, e há momentos em que a coluna está na cabeça, prontinha, uma semana antes). Tenho basicamente um tema a explorar por semana. Alguns são meio óbvios, como falar da final da Copa dos Campeões, mas a maioria é bem instintiva. Às vezes baixa uma inspiração neste colunista mascarado, às vezes baixa uma revolta, uma resposta, um desafio… Não sei. Sou um caso raro ainda de colunista de futebol internacional que não tem blog. Os caras em geral escrevem sobre tudo a todo minuto e muitas vezes não se aprofundam em nada. Isso não é uma crítica aos blogueiros (você é dos melhores, e seu pai sabe que não sou puxa-saco). Talvez parta para um blog mais dia ou menos dia e me dê bem com isso (sacrificar meu tempo é uma das minhas maiores características). Minha coluna, que também não se aprofunda em nada por falta de espaço (e de tempo e de competência, às vezes), me agrada mais hoje. Posso analisar melhor uma situação, um jogo, um campeonato, ouvir e ler outros comentaristas e dar minha ”leitura” do que está acontecendo fugindo sempre das obviedades que tanto abomino. Mesmo que tenha a mesma opinião de todos, procuro colocar um pouco do meu jeito numa crítica, num elogio, numa informação. Trato do que amo da forma que gosto de escrever, com quase total liberdade.
Joca: Em suas colunas, você cita muitas vezes jogadores que são injustiçados pela sua forma de ser. Lembro-me de uma em que você achava que não gostávamos tanto do Kaká porque ele não chifrava a mulher, tinha uma relação religiosa muito forte e porque nunca havia se metido em confusões. Citava que idolatrávamos Ronaldo e Adriano mais do que o craque do Milan (naquela época). Em outra, me deu ideia para minha primeira coluna no Blog, dizendo que Ibrahimovic não era relacionado entre os melhores do mundo por ser feio (pra burro). Por que no futebol é tão comum não reconhecermos parte dos verdadeiros talentos?
Rodrigo Bueno: O Ibrahimovic, além de feio (é o nariz que basicamente o atrapalha), não tem carisma. Parece um cara comum. Poderia estar na redação da Folha trabalhando na editoria de Dinheiro ou em Informática. Não tem pinta de craque genial. Mas é, fazer o quê? Bom, sobre não reconhecermos parte dos verdadeiros talentos, acho que isso tem um pouco a ver com preconceitos. No caso do Kaká, temos ele como um cara bonitinho, meio filhinho de papai, e esse não estereótipo do craque brasileiro. Ele deve ter sofrido com esse preconceito desde as categorias de base. O Maradona tem uma frase legal sobre o Beckham. Certa vez ele falou algo como: ”Veja o rosto lindo que ele tem. Um homem com essa carinha não pode ser um grande jogador de futebol”. É mais ou menos o que pensam da maravilhosa Megan Fox (”como uma deusa como ela pode ser uma boa atriz um dia? ”). Eu confesso ter um certo preconceito ainda no futebol com jogadores asiáticos. Desde pequeno, quando tinha colegas de olhos puxados, não os pegava para meus times. Adorava os caras, mas preferia tê-los como adversários em campo porque nunca poderiam jogar nada: ”Japonês é craque em tudo, menos no futebol”. Acho que ainda analisamos muitos jogadores pelo físico, pela aparência, pela nacionalidade, pelo comportamento fora de campo etc. Se é coreano, corre muito; se é africano, é indisciplinado taticamente; se é norueguês, é tosco; se é sueco [Ibrahimovic], não pode ser nunca melhor do mundo. E por aí vai…
Joca: Sua profissão mudou a sua relação com o esporte?
Rodrigo Bueno: Vejo minha profissão como esporte. Pratico todos os dias. E curto. Meu trabalho só me deixou mais perto e mais fã do mundo esportivo (falo tanto do que praticamos quanto do que ”apenas” assistimos). Parafraseando propaganda da Folha, não dá para viver sem esporte.
Joca: O que falta no futebol brasileiro para nosso campeonato ter condição de ser comparado aos campeonatos nacionais europeus?
Rodrigo Bueno: O Brasileiro por pontos corridos, algo que sempre defendi, é sensacional. Mesmo esvaziado pela saída dos melhores jogadores, é um campeonato dos mais legais do mundo. São muitos times de camisa, muitas torcidas numerosas, muitas promessas, muitas histórias… Podia e devia ser melhor vendido, organizado. Deveria tomar o ano inteiro, não ser ‘’só” entre maio e dezembro. Deveria parar em meio aos jogos da seleção. Deveria acontecer praticamente só nos finais de semana etc. O calendário brasileiro nem precisa se adequar totalmente ao europeu, mas precisa ter o mínimo de lógica e sentido. Por que a Copa do Brasil tem que ser feita num semestre só? Por que os times que jogam a Libertadores não podem disputar a Copa do Brasil? Isso tem que ser mudado, claro. Os Estaduais podem continuar bem sendo jogados só aos meios de semana e por poucos times (poderia ser como a Copa da Liga da Inglaterra). A Copa do Brasil deveria abrir espaço para todos os times de futebol do país que queiram disputá-la. Com fases eliminatórias, poderíamos ter mil times na disputa. Não estamos tão longe do modelo que eu considero ideal. Um pouquinho de boa vontade e Bingo!
Joca: O nome do seu filho é Diego. Por que não Édson?
Rodrigo Bueno: Meu filho tem o nome de Diego na verdade por causa do Zorro (a máscara do pai, em especial no futebol, é enorme). Minha mãe pensou em me dar o nome de Diego por causa de Don Diego De La Vega, mas mudou em cima da hora por causa do El Cid (meu avô é espanhol). Minha mulher curtiu muito o nome e ficou assim. O Maradona, admito, é uma boa inspiração para meu filho, mas o Diego Lugano também é [a primeira camisa do Dieguito foi a 5 de Lugano].
Joca: O que diria a um calouro de 12 anos que não se imagina em outro lugar senão o jornalismo esportivo quando crescer?
Rodrigo Bueno: Venha para o lado do jornalismo esportivo (por favor, não para o lado negro, marrom…). A gente não ganha bem, mas se diverte. E é o que vale no final das contas.
Rodrigo Bueno: O futebol europeu ficou popular no Brasil porque é muito bom. Brasileiro pode não entender de muita coisa, mas de futebol entende. Se os melhores jogadores, times, partidas e torneios estão lá, vamos vê-los. E agora não falta quem transmita, comente, discuta, faça propaganda positiva do futebol europeu. Os games estão sem dúvida nenhuma entre os fatores que contribuíram para a globalização e a adoração do futebol, em especial o europeu, que reúne a nata do esporte. O Pelé é uma lenda, um mito que muita gente não viu jogar ou, se muito, o acompanhou na Copa de 70 (falo do mundo todo). O Cristiano Ronaldo, o Kaká e o Messi estão na nossa frente todos os dias, basta entrar num site, ligar na enésima reprise do jogo na TV a cabo, ver o TL (texto-legenda) da contracapa do nosso jornal, jogar o Winning Eleven etc.
Joca: Caso o Ajax (time para o qual você torce na Europa) vencesse a UEFA Champions League, e o time para o qual você torce aqui no Brasil vencesse a Libertadores, para quem você torceria na final do Mundial?
Rodrigo Bueno: Em condições normais, torço pelo São Paulo contra qualquer adversário, mesmo meu (s) time (s) europeu (s). Torço pelo Liverpool e pelo Milan, mas fui muito São Paulo contra os dois em Mundiais. O mesmo vale para o Barcelona, um dos quatro times espanhóis que são simpáticos para mim. Aprendi a torcer a favor e contra determinados times, técnicos e jogadores. Por exemplo: torcia muito pelo São Paulo de Telê, mas talvez torcesse contra um São Paulo de Vanderlei Luxemburgo. O Ajax de 1995 era um time infinitamente mais legal que o Grêmio do Felipão. Mesmo se não torcesse pelo Ajax, acabaria torcendo pelo gigante de Amsterdã pelo seu futebol mais encantador. Meu coração vê muito a fase dos times (sou um torcedor vira-casaca diet). O Ajax hoje dá pena. Se vencer milagrosamente uma Copa dos Campeões (não aguenta mais nem o fraco Campeonato Holandês), tendo a torcer por ele em um Mundial por piedade, pelo resgate de uma história linda que a globalização ajudou a minar. Hoje, o São Paulo está muito mais perto de um tetra, penta, hexa mundial do que o Ajax de um tri do planeta. Engraçado que, quando o São Paulo jogou seus três Mundiais, eu torci também pelo Tricolor por ser supostamente o mais fraco da ocasião. Os títulos mundiais de 1992, 1993 e 2005 eram muito mais importantes para o São Paulo do que para seus poderosos adversários, que podem com dinheiro, organização e camisa estar seguidamente em Mundiais.
OBS: Houve um amistoso entre São Paulo e Ajax no Morumbi em 1997. Fui nesse jogo apoiar o Ajax, que atuou com uma equipe mista (peguei depois do jogo a camisa do Reuser, um reserva do Ajax que simplesmente não acreditou que um brasileiro, mesmo jornalista, pudesse saber seu nome). O jogo foi interrompido quando estava 1 a 1 por causa de uma neblina até hoje única na história do Morumbi. Foi fruto da minha torcida para nenhum dos dois times passarem vergonha.
Joca: Como se tornou colunista da Folha de S. Paulo?
Rodrigo Bueno: Eu só virei colunista da Folha, de forma muito precoce (24 anos, com cabeça de 12), porque Silvio Lancelotti, o dono da coluna de futebol internacional até então, deixou o jornal, e porque o Melk, meu editor, não teve medo de arriscar. Eu era (ainda sou rsrsrs) um grande risco. E minhas primeiras colunas foram bem fracas. Escrevia preocupado em ser o novo Lancelotti, em agradar ao Melk, em seguir determinados padrões, em ser certinho demais… (ou seja, não era bem a ”minha coluna”). Com passar do tempo, fui me soltando, e a coluna foi ficando mais com a minha cara (pobre leitor!).
Joca: Você poderia contar um pouco de sua rotina de trabalho? Como você escolhe o assunto do qual irá escrever em sua coluna?
Rodrigo Bueno: A rotina do trabalho é não ter rotina (tem dia que escrevo atrasando o fechamento, sem ter a mínima ideia do que ”falar”, e há momentos em que a coluna está na cabeça, prontinha, uma semana antes). Tenho basicamente um tema a explorar por semana. Alguns são meio óbvios, como falar da final da Copa dos Campeões, mas a maioria é bem instintiva. Às vezes baixa uma inspiração neste colunista mascarado, às vezes baixa uma revolta, uma resposta, um desafio… Não sei. Sou um caso raro ainda de colunista de futebol internacional que não tem blog. Os caras em geral escrevem sobre tudo a todo minuto e muitas vezes não se aprofundam em nada. Isso não é uma crítica aos blogueiros (você é dos melhores, e seu pai sabe que não sou puxa-saco). Talvez parta para um blog mais dia ou menos dia e me dê bem com isso (sacrificar meu tempo é uma das minhas maiores características). Minha coluna, que também não se aprofunda em nada por falta de espaço (e de tempo e de competência, às vezes), me agrada mais hoje. Posso analisar melhor uma situação, um jogo, um campeonato, ouvir e ler outros comentaristas e dar minha ”leitura” do que está acontecendo fugindo sempre das obviedades que tanto abomino. Mesmo que tenha a mesma opinião de todos, procuro colocar um pouco do meu jeito numa crítica, num elogio, numa informação. Trato do que amo da forma que gosto de escrever, com quase total liberdade.
Joca: Em suas colunas, você cita muitas vezes jogadores que são injustiçados pela sua forma de ser. Lembro-me de uma em que você achava que não gostávamos tanto do Kaká porque ele não chifrava a mulher, tinha uma relação religiosa muito forte e porque nunca havia se metido em confusões. Citava que idolatrávamos Ronaldo e Adriano mais do que o craque do Milan (naquela época). Em outra, me deu ideia para minha primeira coluna no Blog, dizendo que Ibrahimovic não era relacionado entre os melhores do mundo por ser feio (pra burro). Por que no futebol é tão comum não reconhecermos parte dos verdadeiros talentos?
Rodrigo Bueno: O Ibrahimovic, além de feio (é o nariz que basicamente o atrapalha), não tem carisma. Parece um cara comum. Poderia estar na redação da Folha trabalhando na editoria de Dinheiro ou em Informática. Não tem pinta de craque genial. Mas é, fazer o quê? Bom, sobre não reconhecermos parte dos verdadeiros talentos, acho que isso tem um pouco a ver com preconceitos. No caso do Kaká, temos ele como um cara bonitinho, meio filhinho de papai, e esse não estereótipo do craque brasileiro. Ele deve ter sofrido com esse preconceito desde as categorias de base. O Maradona tem uma frase legal sobre o Beckham. Certa vez ele falou algo como: ”Veja o rosto lindo que ele tem. Um homem com essa carinha não pode ser um grande jogador de futebol”. É mais ou menos o que pensam da maravilhosa Megan Fox (”como uma deusa como ela pode ser uma boa atriz um dia? ”). Eu confesso ter um certo preconceito ainda no futebol com jogadores asiáticos. Desde pequeno, quando tinha colegas de olhos puxados, não os pegava para meus times. Adorava os caras, mas preferia tê-los como adversários em campo porque nunca poderiam jogar nada: ”Japonês é craque em tudo, menos no futebol”. Acho que ainda analisamos muitos jogadores pelo físico, pela aparência, pela nacionalidade, pelo comportamento fora de campo etc. Se é coreano, corre muito; se é africano, é indisciplinado taticamente; se é norueguês, é tosco; se é sueco [Ibrahimovic], não pode ser nunca melhor do mundo. E por aí vai…
Joca: Sua profissão mudou a sua relação com o esporte?
Rodrigo Bueno: Vejo minha profissão como esporte. Pratico todos os dias. E curto. Meu trabalho só me deixou mais perto e mais fã do mundo esportivo (falo tanto do que praticamos quanto do que ”apenas” assistimos). Parafraseando propaganda da Folha, não dá para viver sem esporte.
Joca: O que falta no futebol brasileiro para nosso campeonato ter condição de ser comparado aos campeonatos nacionais europeus?
Rodrigo Bueno: O Brasileiro por pontos corridos, algo que sempre defendi, é sensacional. Mesmo esvaziado pela saída dos melhores jogadores, é um campeonato dos mais legais do mundo. São muitos times de camisa, muitas torcidas numerosas, muitas promessas, muitas histórias… Podia e devia ser melhor vendido, organizado. Deveria tomar o ano inteiro, não ser ‘’só” entre maio e dezembro. Deveria parar em meio aos jogos da seleção. Deveria acontecer praticamente só nos finais de semana etc. O calendário brasileiro nem precisa se adequar totalmente ao europeu, mas precisa ter o mínimo de lógica e sentido. Por que a Copa do Brasil tem que ser feita num semestre só? Por que os times que jogam a Libertadores não podem disputar a Copa do Brasil? Isso tem que ser mudado, claro. Os Estaduais podem continuar bem sendo jogados só aos meios de semana e por poucos times (poderia ser como a Copa da Liga da Inglaterra). A Copa do Brasil deveria abrir espaço para todos os times de futebol do país que queiram disputá-la. Com fases eliminatórias, poderíamos ter mil times na disputa. Não estamos tão longe do modelo que eu considero ideal. Um pouquinho de boa vontade e Bingo!
Joca: O nome do seu filho é Diego. Por que não Édson?
Rodrigo Bueno: Meu filho tem o nome de Diego na verdade por causa do Zorro (a máscara do pai, em especial no futebol, é enorme). Minha mãe pensou em me dar o nome de Diego por causa de Don Diego De La Vega, mas mudou em cima da hora por causa do El Cid (meu avô é espanhol). Minha mulher curtiu muito o nome e ficou assim. O Maradona, admito, é uma boa inspiração para meu filho, mas o Diego Lugano também é [a primeira camisa do Dieguito foi a 5 de Lugano].
Joca: O que diria a um calouro de 12 anos que não se imagina em outro lugar senão o jornalismo esportivo quando crescer?
Rodrigo Bueno: Venha para o lado do jornalismo esportivo (por favor, não para o lado negro, marrom…). A gente não ganha bem, mas se diverte. E é o que vale no final das contas.
FONTE: BLOG DO JOCA http://jocafuteblog.blogspot.com/
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