Não falo de nenhum jogador e o adjetivo miserável do título está aplicado no sentido de pobreza, mesmo. Falo, portanto, do Brasil, a estrela do planeta pós-crise.
New York Times, Financial Times, Wall Street Journal e outros menos votados vivem incensando o Brasil e citando o país como exemplo. Estamos no G20, nosso presidente é “o cara”, segundo o cara que de fato é “o cara” e nesse andar da carruagem vamos papar os Jogos Olímpicos de 2016, fazendo barba e cabelo com a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Nem por isso deixando o Brasil de ser tão miserável como é e podemos ver nas cidades e nos sertões.
Por conta disso tudo, “dona” FIFA não deixa por menos e faz exigências que não fez à pobre África do Sul (cuja distribuição de renda é melhor que a brasileira) e tampouco fez à rica Alemanha. Provavelmente, Blatter e Valcke andam lendo demais sobre o pré-sal e a entrada de Pindorama na OPEP, lembram dela? Além disso, seus assessores devem ter-lhes passado a obra completa com os discursos do presidente da república. Ela existe, sim, e dizem que foi impressa em papel cor-de-rosa, não por aquilo que Diego Souza e Helio dos Anjos não gostam, mas por ser essa a cor com que o presidente encara seu país e seu reinado.
Para atender às exigências de “dona” FIFA, todo mundo corre atrás de projetos mirabolantes. Somente a cidade de Brasília vai gastar – segundo previsão oficial – 700 milhões de reais em sua portentosa arena. A mesma oficial previsão dizia que o Engenhão custaria 40 milhões. Ficou, ainda oficialmente, em 400 milhões e, para sorte da prefeitura da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, um clube dispôs-se a pegar o elefante, digo, estádio e usá-lo e mantê-lo. Quem assumirá a arena brasiliense? O Brasiliense? O Gama? O Senado da República? A Câmara dos Deputados?
No caso de uma dessas duas instituições republicanas, como a arena será coberta e coisa e tal, os senhores senadores ou os senhores deputados correrão a fazer uma licitação, logo cancelada devido à urgência, o que permitirá a contratação de empresa de notória capacidade na área e por mera coincidência com fortes e estreitas ligações com altas figuras republicanas, para dotar toda a arena de portentoso, também, sistema de ar condicionado, com umidificação automática para os meses de secura extrema. O gramado será substituído por bonitos tapetes persas importados da China, sobras de produção dos uigures de Xinjiang com a comercialização atravancada pela ação dos verdadeiros manufatureiros dos tapetes persas, os turcos e iranianos. Razões maiores de estado, todavia, levarão o próprio presidente a decidir pela compra dos “persas” chineses, repetindo a ação desastrada e precipitada dos caças franceses. Isso porque o Sarkozy veio sem a Carla… Tivesse ela acompanhado o maridão e seríamos, novamente, a França Antártida.
Tapetes persas? Um estádio sem gramado?
Ora, não fará falta, Brasília tem outros estádios, inclusive um recém-reformado, por um custo bem camarada, digo, razoável. Além disso, a cidade não tem futebol, logo, para que mais gramados?
Manaus também não tem futebol, mas terá portentosa arena (gosto de portento, de coisas portentosas; são chiques, são espetaculares, são “tudo de bom”, por isso essa portentosa repetição ao invés de sinônimos), construída com portentosíssima verba do rico estado amazonense. Belém tem futebol e multidões enlouquecidas pelo esporte bretão que consagrou Teixeira, mas não terá a Copa. Bom, fosse eu um turista europeu, iria para Belém e de lá, por ponte aérea ou ponte hidrorivária (bárbara) ou ponte aéreo-hidroviária, por nada desse mundo deixaria de ir a Manaus, no coração da selva amazônica. Por sinal, o intervalo entre um jogo e outro da primeira fase daria certinho para subir o Amazonas em luxuoso barco, conhecer Manaus e arredores e voltar voando a tempo do apito inicial do jogo seguinte. Isso é bobagem minha, a Copa será em Manaus e a floresta ganhará portentoso elefante branco, que no prazo de um ano será cinza-ruína.
Em Cuiabá o elefante não será branco e sim verde, não por ser palmeirense, mas por ser essa a nova cor da moda e a cor adotada pelo governador matogrossense, que nunca deixou de ser verde, uma vez que a soja é verde (a bem da verdade: a soja é uma bênção para onde está implantada, gerando empregos, renda e preservando o solo, graças ao plantio direto, empregado em larga, para não dizer total, escala).
Em Belo Horizonte não sei qual será a cor do estádio, o velho Mineirão, que será reformado por módica quantia, ainda desconhecida, oficialmente, mas extra-oficialmente estimada em 300 milhões. De reais, felizmente. O que não quer dizer que o custo final não venha a ser, também, 300 milhões. De libras ou, com muita sorte, de euros.
Bom, soube de fonte segura que o pessoal do Guiness está preparando nova e portentosa edição do livro de recordes, tendo como motivação a Copa no Brasil. Nunca antes o Guiness dedicou uma edição inteira a um único evento em um único país.
Pois bem, nesse cenário bilionário, Jerome Valcke, secretário-geral da FIFA e já velho conhecido deste Olhar Crônico Esportivo, reconheceu ontem, durante evento de lançamento da nova campanha da Coca-Cola, que o novo projeto do Morumbi atende às exigências fifescas. Disse, porém, que a capacidade do estádio não é suficiente para a partida de abertura ou qualquer partida importante da Copa.
Os projetados 60.000 lugares para torcedores, previstos anteriormente nos cadernos de encargos, agora, segundo ele, são 65.000. Esse é o número ideal. Pelo visto, se houver alteração no projeto e o Morumbi comportar 65.000 torcedores, o ideal passará a ser uma capacidade de 70.000. Pelo visto, parte II, ou a mui rica e pouco estimada cidade de São Paulo faz uma arena de dois bilhões de reais, pouco mais de um bilhão de dólares, ainda não contando com todo o superfaturamento, ou os paulistanos serão contemplados somente com Gana x Afeganistão, Austrália x Montenegro e vice-versa e versa e vice. E só na primeira fase, pois a cidade não terá estádio à altura de Camarões x Irã ou, nesse caso então nem pensar, Ilhas Faroe x Vietnã, pelas oitavas-de-final.
É fato, depois disto: o Morumbi não desceu do telhado.
Fico aqui pensando em como deve ser bom ser rico. Deve ser uma beleza.
E pensando que já se fez manifestações contra a ingerência do FMI em nossa economia.
E que muito já se gritou contra o imperialismo ianque.
Parece-me chegado o momento de manifestações contra o imperialismo fifesco e seus fantoches.
Convoque-se aquele companheiro expert em organizar as massas (meia-dúzia de protestadores – para não confundir com protestantes – que fazem muito barulho e agitação e transformam marolas em tsunamis) e vamos às ruas contra esse novo imperialismo.
Como?
Ah… O companheiro agora é lobista da confederação?
Bom, sempre resta o sonho irrealizável da locupletação para todos, não?
(Irrealizável, sim, porque no locupletamento dá-se o enriquecimento de um ou uns em detrimento de outro ou outros; logo, locupletar-nos-emos todos em detrimento de quem? De nós mesmos? Aí seria um novo socialismo, não moreno, mas bronzeado.) (E seria ético um socialismo baseado na locupletação?)
FONTE: http://colunas.globoesporte.com/olharcronicoesportivo
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